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Por Trás das Tintas


 

2019 - 19 minutos
Dir. Alek Lean


     Por trás das tintas, de Alek Lean, filme indicado para o prêmio de Melhor Curta Internacional em Inshort Film Festival 2019 (Lagos - Nigéria), que também recebeu menção honrosa no New Generation Film Festival (Sérvia) e menção honrosa no Festival Cultural Internacional Pangeia Conexão Américas e África 2020, assim como foi selecionado para diversos festivais no Brasil e no mundo, propõe uma reflexão audiovisual sobre a tela “Engenho de Mandioca”, de Modesto Brocos, de modo a questionar o ponto de vista colonizador e eurocêntrico de tal imagem. O filme traz, em seu prólogo, a seguinte questão inscrita na tela: “O que está por trás da beleza do quadro "Engenho de Mandioca" do espanhol Modesto Brocos, através da visão narrativa de uma mulher retratada ao fundo desta pintura?”.

     O que vemos nos detalhes e no plano geral do quadro é que a cena presente em “Engenho de Mandioca” do pintor espanhol Modesto Brocos – conhecido por difundir e perpetuar um projeto racista anti-negritudes e anti-indígenas e eugenista em suas pinturas – mostra a escravização instituída por europeus durante séculos das gentes africanas de forma naturalizada, harmônica, exótica e uniforme em linhas de perspectiva que, dentro e fora do quadro, visam justificar o sequestro e o trabalho forçado delas, fomentando assim, a apreciação de espectadores brancos e europeus dominantes. É justamente contra essa perspectiva que o filme Por trás das tintas, como imprime em seu título enfocando algo detrás da posição da tela, narra as ações no quadro a partir de uma voz ativa, de uma consciência crítica, de uma das personagens vista um pouco mais ao fundo da tela. 

     Através dessa imagem sonora, por meio da oralidade, o filme faz ela se deslocar e afirmar sua memória e história oposta à narrativa que a tornam nesse espaço do “Engenho de Mandioca” um corpo arrastado à força pela ordem imposta do poder/dominação de europeus e brancos. Aos poucos, durante a síntese crítica que o curta faz, podemos escutar um relato particular desta personagem e sua percepção sobre o que se passa ali e sobre como sentir e lidar com: a violência colonial incessante prolongada no tempo, a dor, o corpo gestante, a ancestralidade, as perdas, a solidariedade entre seus pares, as resistências, lutas, as revoltas, a amamentação, os silenciamentos, a filiação entre estar às voltas “sem esperança no olhar”, como diz essa voz que, a memória, conforme esse filme-ensaio revolve, saberemos que é de uma Rainha Africana. 

     Na passagem mais adiante de Por trás das tintas, quando vemos os créditos e escutamos sons de tambores talvez mais acelerados, há uma imagem, uma fotografia em preto e branco, como se fosse uma transformação e fuga do espaço e da imposição da tela de Modesto Brocos para um lugar onde vemos essa Rainha Africana à frente. O que o filme introduz, num sentido lírico e sensível, uma percepção capaz de ultrapassar um quase incontornável colonial imaginário/desejo nos chamando a atenção para diferentes movimentos, posições e invenções.

Por trás das tintas, de Alek Lean, parece mostrar também alternativas às tentativas de apagamento histórico-simbólico-cultural das implicações que constroem esta sociedade e este país chamado Brasil, e não só ele, como todo o modo de produção e o sistema de mundos assimétricos em que estamos. 

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