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Aguado


 

2020 - 3 minutos
Dir. Gabriela Miranda e Matheus Brant


 

     “O barco atracou numa festa”. A nós, atracados na dança onírica das imagens, é relatada a viagem dessa voz descorporificada entre rio, mata e terra em carnaval. O acesso frágil, permitido por imagens ora desfocadas, ora sob efeito do lusco-fusco, parece rasurado pelo tempo e impregnado, em tela, em existir no sinestésico. 

     Aguado (2020 - confirmar), de Gabriela Miranda e Matheus Brant, faz uso de arquivos fotográficos e fílmicos para construir-se sonho. O estado aquoso, aludido no título, é mimético da diluição de certezas que as imagens e sons do filme propõem. Onde essa voz estava? De onde ela partiu? Onde parou? Para qual lugar ela reluta, ao fim, seguir? O trajeto atlântico é traçado pela fragmentação natural à tudo que é memória, e seguimos juntos, insustentáveis, sem caminhar, nem correr, nem escalar - flutuamos.

     Na confabulação de Aguado, o intangível dá contornos ao realismo fantástico. A voz acorda em um barco, nos conta, enquanto imagens de mulheres embarcadas, descansando em redes, nos são mostradas. Essa mesma voz nos conta: “ninguém sabia onde era exatamente”. Navega-se dentro de imagens rijas do rio, no qual o movimento só nos é conferido pela banda sonora, generosa em prover-nos o curso d’água. A festa, destino desconhecido, é folia granulada, recortes de rostos sorridentes e adornos cromáticos. A voz dançou com muita gente, nos conta, e seu olhar tremula por entre os vestígios da festa que passou. As fantasias brilham sob o vapor de mercúrio que emana dos postes de rua: são homens fantasiados de bestas ou bestas que usam pele humana? No carnaval do futuro, entre LEDs e paetês, brincam bichos e homens nessa ilha desconhecida.

     A voz amanhece na floresta. A geografia é imaginária e emerge das lembranças, catapulta afetos entre corpos descarnados, árvores, caules, sulcos, riachos. Fauna e flora emulsificados pela câmera empunhada que pulsam em busca de cinzelar película e digital - a voz nos conta que conheceu um bicho com gosto de coco. Ganha presentes que são folhas, regozija com o que é perecível, faz amizade com a galera do futebol. À voz é mostrado um barco que a levaria embora e ela questiona: “de volta pra onde?”. Surrupiados pelo filme-sonho que criou, não se parte e não se fica, mas se esvanece. 

     Aguado se passa em um átimo, ainda que almeje encapsular o tempo. Na nostalgia da memória sem lastro, Aguado subsiste em sua própria atmosfera, inebriante, e nos mostra um mundo esfumado, ainda que terno e belo.

Texto por Julia Noá

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